Conversando sobre adoção de adolescentes

*Por Maria da Penha Oliveira, psicóloga e coordenadora projeto do Grupo Aconchego, intitulado “Entrelaços”

Em uma palestra, há alguns anos, falando sobre adoção e o desejo que a maioria dos pretendentes têm para adotar um bebê ou uma criança pequena, alguém se levantou e me disse que gostaria muito de adotar uma criança maior ou mesmo um adolescente, mas achava que teria muito trabalho e não sabia se tinha estrutura, uma vez que eles já estão com a “personalidade formada” e que seria difícil educá-lo com os princípios de sua família.

No mesmo dia, outras pessoas também comentaram que adotar um bebê ou uma criança pequena seria mais fácil de “moldá-la”. Em ambas as motivações desses pretendentes se percebe o desejo de uma criança que se assemelhe a eles, pais por adoção. Que se “esqueça” a origem e a história da criança ou que, pelo menos, não esteja tão evidente sua herança biológica e sua biografia.

Para responder a essas questões, primeiro precisamos questionar a motivação desses pretendentes. Por que estão em um processo de adoção? Desejam um filho ou desejam uma criança ou adolescente para educá-lo?  Nenhuma das alternativas está errada, já que podemos assumir o papel de pais que amam e educam e podemos também assumir um papel de ser apenas um educador afetivo.

Nesse mundo de crianças e adolescentes acolhidos, ambos os papéis podem ser desenvolvidos.  Ser pai ou mãe está implícito afeto, sem ignorar a importância da educação e da aceitação das características, do comportamento ou do “jeito de ser” do filho, independentemente se ele nasce de parto natural ou parto por adoção. O banho afetivo é necessário no cotidiano da convivência, seja nos momentos de se impor o limite, seja no momento da educação formal ou nos momentos de alegria e prazer.

Porém, se o desejo de educar estiver atravessado pela expectativa de sucesso ou de se “consertar” o que supostamente veio errado ou quebrado, um lugar em que o afeto é apenas um sinal de se cumprir o papel solidário e social de se fazer o bem, convidamos esse pretendente a refletir melhor suas motivações. Como disse, o papel de educador tem relevância, mas ele pode ser desenvolvido junto a outros papéis que não pai ou mãe.

Adoção não é um processo simples. A espera por um filho por adoção envolve questionamentos, sensações e sentimentos diferentes de uma gestação biológica. Ele é gerado por outra pessoa e o vínculo de filiação é construído basicamente na convivência, seja um bebê, uma criança ou adolescente. O tempo de gestação adotiva também é diferente da realidade da gestação biológica.

Na adoção, o pretendente, se quiser, pode escolher a idade, o sexo, a cor, pode aceitar doenças ou limitações físicas ou psicológicas da criança, mas não consegue determinar o tempo de gestação desse filho.  Pode ser meses ou anos de espera. E isso é um complicador no desejo de adoção, pode causar ansiedade, queda da motivação ou mesmo provocar a mudança de perfil para que o sonho de maternidade/paternidade se realize mais rápido, tendo em vista que mais de 70% das crianças inseridas no SNA são maiores de 9 anos, equivalendo-se afirmar que o processo de adoção pode se tornar mais curto.

Porém, acelerar o processo não deve ser o motivo para se adotar uma criança maior ou um adolescente.  A mudança de perfil pode acontecer como resultado de um trabalho de reflexão e o pretendente pode se questionar: desejo um bebê ou desejo um filho? Se é um filho, ele pode ter mais idade? Pode ser uma criança, um púbere, um adolescente? O desejo pode ir se construindo e se modificando ao longo da espera, não porque só existem crianças maiores nas instituições, mas porque encontram nesse tempo de espera, um lugar para um filho diferente daquele imaginado. Que naturalmente pode ser um adolescente.

Mas algumas pessoas me perguntam como é possível adotar um adolescente? Uma fase naturalmente complexa do desenvolvimento humano. Não seria melhor adotar uma criança pequena? Minha primeira resposta diz que, essa criança vai crescer e vai se tornar um adolescente. O que nos garante que o vínculo pais e filhos será mais tranquilo se a criança for adotada mais cedo? Não sabemos responder ao certo, podemos dizer apenas que em qualquer contexto familiar, a adolescência nos convoca a um saber e um afeto maior ou diferente daquele que nutrimos pelos filhos ainda crianças, afinal, o adolescente é um ser que confronta a nossa autoridade e o nosso saber materno/paterno.

Adolescência é um tempo marcado por grandes transformações biológicas, emocionais e comportamentais. Tempo de grandes descobertas e desafios. Um sujeito em processo de subjetivação.  Entre a morada infantil e os compromissos da vida adulta, o adolescente ensaia o seu novo papel no mundo.  E para que desempenhe bem esse papel nos palcos da vida, o adolescente precisa, necessariamente, de um bom diretor, ou de alguém que dirija ou supervisione as suas cenas, que acesse a sua linguagem e acredite em seus sonhos.

Este é o papel do pai ou da mãe ou de algum outro que cuida, que guia, que dá o limite, ao tempo em que dá espaço para que se transforme em um adulto. Nesse sentido fico a pensar como os adolescentes em situação de acolhimento se projetam para o futuro? Quem os orienta? Quem acredita em seus sonhos? Quem garante a eles que a insegurança com o corpo ou com a sexualidade ou com sua escolha profissional há de passar?

Adolescentes acolhidos são sujeitos de cuidados e de afeto como qualquer outro adolescente na vida.  Precisam de pais inspiradores, que sustentem seu projeto de vida e os seus sonhos.

Entendo que adotar um adolescente tem suas especificidades, por se tratar sempre de um sujeito cheio de questionamentos, dúvidas e ousadia. Busca sua identidade e singularidade,  deseja crescer como um ser social e ocupar o lugar que lhe pertence. O adolescente tem toda “afobação” para se tornar adulto, mas ainda é seduzido pela infância vivida com os cuidados do outro. Nem criança, nem adulto, apenas um tempo de passagem, que exige de seus cuidadores, maturidade, afeto e sabedoria para lidar com esse tsunami de emoções.

Será essa, uma tarefa fácil? Obviamente que não. Ainda mais se pensarmos em adolescentes com histórico de maus tratos. Porém, em minha experiência, ouvindo suas histórias em oficinas sobre projeto de vida, guardo muitos de seus sonhos de futuro: “- como vejo meu futuro? … termino os estudos, passo no concurso ou trabalho de carteira assinada.”  “… eu me formo em direito (sou juíza) e nunca deixo de procurar minha família…” “… eu era um cara agressivo e muito respondão, mas graças a Deus eu não sou mais aquela pessoa ingrata e respondona, agora eu quero uma família.” “…quero terminar meus estudos, formar minha família, e entrar na faculdade…”. Certamente esses adolescentes precisarão de um mediador, que pode ser um pai e/ou uma mãe, uma pessoa significativa que traduza os seus anseios e sua rebeldia, que reconte sua história, que aposte na sua capacidade de resiliência e de construção de futuro.

Eu tenho convicção de que a adoção de adolescente é possível, mas é preciso preparação de todos aqueles que fazem parte do processo: de equipes dos serviços de acolhimento e de justiça; de pretendentes a adoção; e do adolescente. A preparação deve ir além dos encontros realizados pela Justiça. Temas próprios da adolescência e o desenvolvimento do papel de pais de um sujeito já crescido, que anda e confronta, mas que anseia por cuidados como se fosse uma criança, também precisa ser aplicado nos encontros de preparação.

Pelo lado do adolescente, é preciso fazer a escuta de seus desejos, saber o que sente e se realmente a adoção cabe em seu projeto de vida. É preciso acompanhamento de todo o processo, desde a apresentação, o estágio de convivência, o processo de guarda e a adoção. Importante lembrar que na adoção, a criança ou adolescente é parte do processo, ele também adota, devendo estar junto com os pretendentes no projeto de constituição da família.

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