Atualmente, há quase três mil crianças e adolescentes, de nove a dezessete anos, no aguardo de uma família. Letícia Mendonça, mãe por adoção há três anos, avalia a situação e comenta sobre a sua experiência

Por Gabriella Collodetti

Atualmente, o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) possui mais de quatro mil crianças e adolescentes a espera de um lar. Os dados, que abrangem todas as regiões brasileiras, destacam que São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná são os estados que apresentam os índices mais altos.

Além disso, por meio do levantamento diário realizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), avalia-se que o número de crianças mais velhas e de adolescentes seja expressivo em instituições de acolhimento por haver uma preferência de perfil no que diz respeito aos interessados e habilitados para os processos adotivos.

Há, por exemplo, quase três mil sujeitos, de nove a dezessete anos, no aguardo da adoção. Em contrapartida, dos três aos oito anos, estima-se que haja metade desse percentual de crianças também na expectativa de encontrar uma família. A diferença é drástica e indica que ainda há medos, preconceitos e ignorâncias com relação a adoção desse público.

Letícia Mendonça, servidora pública e mãe por adoção há quase três anos, acredita que, no que envolve o auxílios do estado, há um enfoque significativo das políticas públicas em relação à primeira infância – cuja idade envolve os primeiros seis anos da criança.

Na sua percepção, apesar de avaliar essa iniciativa como algo fundamental para o desenvolvimento infantil, há também uma necessidade de estar presente de forma cuidadosa e consciente durante a segunda infância (de 7 a 12 anos) e a fase da adolescência (a partir dos 12 anos).

“Não é correta a crença de que, na segunda infância e em idades posteriores, pouco se pode fazer além de administrar prejuízos de etapas passadas e reduzir os danos. Na verdade, este período é riquíssimo para o desenvolvimento humano e fundamental como etapa de passagem para o mundo adulto”, pontua.

Letícia também indica que a adoção tardia ainda é considerada um tabu social por conta das dificuldades presentes na criação de um jovem, adotivo ou não. Segundo a servidora pública, a adoção, em si, pode ser difícil independente da faixa etária. Contudo, na adoção de pré-adolescentes e adolescentes, a construção da filiação, esse vínculo afetivo entre pais e filhos, requer um tempo maior, quando comparado a crianças menores. Reconhecer isso e aprender a lidar com esse fato como algo natural, e não um sinal de fracasso, pode ser um passo importante para o avanço dos processos adotivos junto a esse público.

“Cuidar de adolescentes, adotivos ou não, é desafiador. Então, temos que admitir isso. O adolescente não é uma criança menor. Ele vive uma fase específica do seu desenvolvimento. A mudança é grande, as necessidades são outras e mesmo que os adolescentes disponíveis para adoção vivam várias idades ao mesmo tempo, eles terão necessidades típicas de sua faixa etária também. O Brasil está ainda engatinhando no desenvolvimento de políticas públicas mais focadas nos adolescentes e isso se reflete no campo da adoção”, indica.

Além disso, Letícia reforça que criar um vínculo com adolescentes adotivos implica em superar experiências passadas e não apenas trazer oportunidades de novas vivências a esses jovens, mas sim ajudar, de forma respeitosa, a ressignificar o que já foi vivido e aprendido. E isso implica em não apagar a identidade do sujeito ou ignorar os seus sentimentos em relação ao seu passado.

Os adolescentes vivem uma fase de necessidade de afirmação da sua identidade. Assim, é normal e necessário lembrar com detalhes da convivência familiar anterior. Eles amam os genitores e vão protege-los. Nesse aspecto, é preciso dar espaço para esse afeto, ainda que no plano simbólico, e tentar construir um novo espaço, igualmente amoroso, de maneira a não competir com esses genitores. É muito importante ter respeito à história desse jovem para que não tenha uma fragmentação da sua identidade”, explica.

Visão adolescente

O avanço da adoção apenas durante a primeira infância, junto com a diminuição do interesse por crianças mais velhas e adolescentes, pode trazer cicatrizes para a vida. Ketlen, de 14 anos, filha de Letícia, relembra sua época na instituição de acolhimento. “Achei que ia ficar lá no abrigo até os 18 anos. Então, a minha mãe adotiva apareceu”, comenta a jovem, que na época da adoção tinha 11 anos.

Contudo, Ketlen avalia que grande parte da população não opta crianças de idades maiores. Para ela, isso traz sentimentos de fracasso para esses adolescentes. “Pessoas de idades maiores podem fazer a diferença. Elas vão entender mais as coisas e podem dar menos trabalho”, aponta.

Criando laços

Letícia não nega que o período pós-adoção foi um momento de muitas dificuldades. Contudo, com o suporte de amigos do grupo de apoio a adoção e de profissionais especializados, foi possível contornar a situação. Para ela, compartilhar essa vivência, assim como ouvir pessoas que passaram pela mesma situação, ajudou bastante nesse processo.

Como mensagem de apoio, ela indica aos que estão interessados no tema que não há necessidade de ter vergonha das próprias dúvidas e receios, pois todos os questionamentos são legítimos e, apenas tendo coragem de expor isso e dialogar com quem já viveu algo parecido, é possível amadurecer sentimentos e tomar uma decisão responsável.

“É necessário desenvolver uma capacidade para adoção em qualquer faixa etária. Quanto mais você souber sobre a fase de desenvolvimento da idade que está adotando, melhor, pois ajuda a separar o que é o desafio típico da adoção do que é simplesmente um desafio da idade. Isso orienta muito a atuação de nós enquanto pais”, aconselha.

Para ela, a adoção de adolescentes, especialmente, traz a oportunidade de entrar em contato com uma nova geração: desafiadora e bela. Letícia ressalta que é gratificante ver esses indivíduos crescendo e começando a criar uma imagem de valor de si mesmo, amadurecendo escolhas e descobrindo talentos. Além disso, a servidora pública indica que, para adotar jovens mais velhos, é preciso acreditar que eles são capazes de se tornarem sujeitos de sua própria transformação e de construir novos caminhos.

“Não devemos aceitar o discurso de que eles já estão formados e nada há mais a fazer. Certa vez, por exemplo, minha filha me disse uma coisa muito bonita, justamente no meio de uma conversa difícil entre nós duas: ‘mãe, foi você que me ensinou que eu valho a pena e foi com você que eu voltei a ter sentimentos, porque antes eu não sabia se estava triste ou feliz, eu simplesmente não sentia nada’”, recorda.

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